BRASIL REPUBLICANO? OU SONHOS IMPERIAIS?
Quando a
República foi "proclamada", Aristides Lobo; testemunha do fato,
declarou: "O povo assistiu bestializado o evento". Achavam ser uma
espécie de parada militar ou algo semelhante, nunca uma mudança política de tal
envergadura. A verdade, escondida, é que por muito tempo o Império foi uma
sombra diante da República nascente. Revoltas se espalharam pelo país e o
próprio Marechal Deodoro da Fonseca preconizava um governo provisório até que
um plebiscito decidisse de vez os caminhos do país. Tal ato apenas ocorreu em
1984, quase um século depois. Claro que a esta altura a República já estava
consolidada na mente da população. Estava? Por fim a República ganhou.
Provocada por um misto de pressão governamental através de uma intensa
propaganda tendenciosa e a desunião do movimento monarquista, o pleito deu
ganho, com aparente folga, à manutenção da República. Uma República marcada por
9 presidentes militares, 3 golpes de estado, vários estados de sítio, e 7
governos autoritários foi preferida a um sistema cujo último governante permaneceu
por 58 anos no poder mantendo a tal ponto o caráter democrático de seu governo
que permitiu inclusive a existência de um partido republicano.
O ponto
importante porém a que pretendo explorar neste texto não se refere a isto, mas
sim à vocação dita republicana do povo brasileiro. Assistindo todos os anos os
desfiles das Escolas de Samba cariocas, paulistas e de outros estados,
deparamos-nos; sem percebermos, com a maior declaração inversa de uma tradição
monárquica e mesmo um saudosismo desta. Diversas agremiações levam em seus
nomes alcunhas de "império" ou "imperatriz" em total
referência a esta forma de governo. Dirão os defensores do sistema republicano
tratar-se de mera figura abstrata relacionada a fatores alheios a qualquer
ideologia política. Será?
Temos
também os representantes do Carnaval, o rei Momo, as rainhas e princesas das
Escolas de Samba. Ainda dirão tal fato estar restrito ao evento em si, devido à
tradições mitológicas de sua origem, mas que explicação seria dada a Pelé, o
rei do futebol, Xuxa, a rainha dos baixinhos, Adriano, o imperador, Francisco
Alves, o rei da voz e Emilinha Borba e Marlene, as rainhas do rádio? Que dirão
agora aqueles que consideram a tradição monárquica enterrada? Será que não é o
preconceito que estabelece qualquer retorno como um retrocesso que impediu no
pleito de 1984 que a monarquia voltasse? Apelos não faltam, explícitos mas
abortados por uma ideologia que confunde retrocesso com recomeço. A tendência a
se olhar o passado e analisar a possibilidade de algo melhor que tenha sido
perdido nele é negada sistematicamente em prol dos interesses de uma política
de ambição pelo poder supremo da presidência da República.
Hoje
temos vários Imperadores, várias famílias imperiais, várias cortes, originárias
de cada detentor deste poder. Se encararmos assim podemos mesmo nos indagarmos,
somos uma República ou apenas uma Monarquia eletiva que dura de 4 a 8 anos de
acordo com a possibilidade de reeleição do governante? Não serão os
ex-presidentes ex-monarcas e suas famílias, detentoras de pensões altíssimas;
pagas por nós, uma corte republicana? Perguntas vagas dirão aqueles que
defendem a "liberdade do voto republicano", mas isso realmente
existe? Diante da história do Brasil republicano deveríamos rever esta dita
"liberdade" ao nos confrontarmos com todos os momentos que nos
cercearam deste direito. A Monarquia é uma sombra que ainda afronta a República
a ponto de que em nossa constituição, ao contrário do período monárquico, ser
proíbido terminantemente a existência de um partido monarquista. Interessante a
comparação se tivermos a racionalidade desprovida de preconceitos e analisarmos
isto dando, quem sabe, chance de uma nova tentativa que talvez resgate a
estabilidade democrática dos 58 anos saudosos de Sua Magestade Imperial D.
Pedro II.
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