PREFÁCIO AO HISTORIADOR:
"A
História sem preconceitos, sem ideologias pragmáticas, escolásticas ou
quaisquer atributos que a separem de sua verdadeira missão: investigar,
desvendar, analisar e narrar a evolução da humanidade e suas relações tanto
intrínsecas quanto externas diante dos fatos históricos presentes tanto nos
registros empíricos quanto naqueles advindos de outras observações feitas
anteriormente."
Por muito
tempo a História permaneceu como um simples relato dos acontecimentos
contemporâneos a serviço ora do engrandecimento de um povo diante de sua
“missão”, fosse ela política, econômica ou religiosa. Heródoto em sua História, enaltece as civilizações
helenísticas, suas contemporâneas, Suetônio em Os doze Cézares, pretende eternizar o registro de forma quase
arquivista dos soberanos imperiais romanos, Santo Agostinho, Eusébio de
Cesaréia e São Tomás de Aquino, utilizando-se da filosofia escolástica cristã,
vinculam em suas obras o Cristianismo como o eixo norteador de sua História;
talvez os primeiros momentos em que uma ideologia passa a nortear o
desenvolvimento de um estudo histórico.
Neste
formato temos então diversas orientações seguindo este caminho. Podemos mesmo
assinalar, à parte de seu contexto reformista, Lutero como um analista da
História de seu tempo ao usar, para defender suas idéias, a análise crítica de
determinado contexto histórico. Marx, utiliza-se também da discussão histórica
para então definir seu pensamento econômico acerca dos caminhos do
Capitalismo.
Desta
forma, o que pretendo ao citar tais personalidades tão próximas e ao mesmo
tempo outras tão distantes do que, classicamente, se chamaria de historiadores,
defender que além de ser complexo definir-se qual o rumo certo no estudo da
História, definir também quem é o verdadeiro historiador é tão desafiante
quanto. Seria simplesmente o acadêmico que se titula formalmente na área? A
testemunha de determinado fato histórico que depõe acerca desta? O defensor
reformista seja ele político, econômico ou religioso ao defender sua nova
ideologia? Vago, necessita certamente de profundas divagações sobre quem seria.
A verdade
é que a História faz-se. Independente de quem decida descrever suas nuances ela
se estabelece pois é o próprio tônus vital do ser racional, daquele ser; humano
ou não_ afinal sabemos nós sejamos os únicos_ que se vincula a este em cada ato
seu. Cada etapa humana desde sua ascenção ao pensamento passou a vincula-lo ao
estabelecimento de sua caminhada e à necessidade de deixar expostos os
acontecimentos pelos quais passa e desbravar de onde veio.
O Homem é um ser que se relaciona com as raízes. Como ser social, agrupasse e estabelecendo vínculos hereditários, interessa-se por estabelecer também origens, sejam elas reais ou abstratas. Assim, como os Gregos se consideravam autóctones, outros vagavam pelo passado em busca de seu ancestral mais primordial. Roma vangloriava-se por intermédio de Virgílio e de sua obra clássica Enéida, da gloriosa ascendência Troiana. Os Hebreus, o povo escolhido, semearam a certeza na existência de um único Deus universal, mas que pertencia apenas a eles. A humanidade busca respostas sobre a quem pertencem e como chegaram ao que é hoje. Buscam através das narrativas históricas conhecer-se e auto afirmar-se na eternidade dos tempos, eternizando-se junto a ela, tornando-se assim menos mortais.
O Homem é um ser que se relaciona com as raízes. Como ser social, agrupasse e estabelecendo vínculos hereditários, interessa-se por estabelecer também origens, sejam elas reais ou abstratas. Assim, como os Gregos se consideravam autóctones, outros vagavam pelo passado em busca de seu ancestral mais primordial. Roma vangloriava-se por intermédio de Virgílio e de sua obra clássica Enéida, da gloriosa ascendência Troiana. Os Hebreus, o povo escolhido, semearam a certeza na existência de um único Deus universal, mas que pertencia apenas a eles. A humanidade busca respostas sobre a quem pertencem e como chegaram ao que é hoje. Buscam através das narrativas históricas conhecer-se e auto afirmar-se na eternidade dos tempos, eternizando-se junto a ela, tornando-se assim menos mortais.
O intuito
porém daquele que podemos denominar historiador, sobrepõe-se a uma mera busca
de raízes heroicas ou argumentos tendenciosos e unilaterais, mas se
universaliza diante dos numerosos aspectos grandiosos e cotidianos da
existência humana. Longe de divagações filosóficas, o verdadeiro historiador;
ao meu ver, estabelece uma narrativa de fatos sem expor conclusões próprias que
o desvinculem da missão de exposição desta caminhada humana. Se no decorrer
desta inúmeros foram aqueles que, inspirados por ideologias, construíram uma
História paralela própria, outros foram os que, desvinculados de preconceitos e
determinismos, elucidaram questões polêmicas rompendo análises tendenciosas e
particulares.
Enquanto,
ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX se discutiu qual a melhor forma de se
analisar e estudar a História, proponho que a partir deste século XXI seja
reconhecido que todos fazem essa História e podem faze-la, desde que
desvinculados de si, em torno dos fatos. Claro que fatos são inconclusivos sem
sua devida constatação e tal coisa carece muitas das vezes do embasamento
necessário que a comprove, mas o importante faz-se que sejam expostas todas as
cartas, sem descartar quaisquer possibilidades. Assim, se comparamos um
panorama não deixaremos de vislumbrar outro por simples descarte sem a devida
análise. Este decerto é um exercício de humildade e desprendimento diante de convicções
diversas, mas que faz-se; ao meu ver, atributo indispensável àquele que se
dispõe, diante das várias fontes e dos fatos históricos, a proceder uma leitura
que estabeleça se não uma verdade absoluta ao menos uma correlação livre de
tendencialismos.
Quando a
pretensão particular domina este estudo histórico, temos as concepções
unilaterais que tanto presenciamos em diversas obras historiográficas desde
então. Produções que destacam determinado ponto de vista em detrimento de outro
na intenção de defender este como único e absoluto. Podemos verificar, por
exemplo, nas abordagens marxistas da História presentes no decorrer do século
XX, na doutrinação Nazista de uma História gloriosa da raça ariana, nas
análises político-econômicas Capitalistas acerca dos países “subdesenvolvidos”
ou mesmo em questionamentos religiosos dogmáticos diversos. Assim, mais do que
a manipulação da História, estabelece-se uma descontinuidade histórica a partir
de que tais visões distorcidas geram “verdades” ambíguas diante de outras,
opiniões que fogem do palpável e existente para seguirem rumos traçados diante
da vontade própria.
Decerto é
um desafio tratar de expor a História procurando, ao mesmo tempo, não ser
tendencioso tampouco ser superficial. Expor uma análise sem faze-la particular
e ao mesmo tempo não deixar essa análise perdida em uma simples arrecadação de
informação. Compor a História é mais do que tudo isto, e quem deve a compor é
um desafio maior ainda a ser estipulado. Neste sentido portanto, vem primeiro estabelecer
que tipo de estudioso tem a capacidade de executar isto da forma mais
imparcial. Quem seria o sujeito que não se fizesse verbo da ação mas um
elemento de ligação entre os diversos complementos de uma frase histórica a fim
de compor, parágrafo por parágrafo, um texto que em uníssono estabelecesse
determinada História? Certamente não seria aquele que o fizesse segundo suas
impressões mas que organizasse racionalmente as diversas fontes e os diversos
fatos estabelecendo suas origens e consequências sem detrimento de cada detalhe
em função de preconceitos ou divergências ideológicas.
Assim
sendo, se um dito Marxista desenvolvesse um trabalho sério sobre a História dos
Estados Unidos, deveria deixar suas convicções de lado para, analisando todos
os aspectos, desenvolver seu trabalho verificando cada detalhe formador desta
sociedade, livre de conceitos preconcebidos acerca do estabelecimento de
conceitos de dominação imperialista ou similares, analisando a formação desta
sob todos aspectos sem definições conclusivas extremistas. Far-se-ia necessário
portanto que se estabelecesse, por exemplo, a situação formadora, aspectos
precedentes, conjunções entre ambos, desenvolvimento, influências externas
posteriores até que se pudesse chegar não a conclusões vagas e particulares mas
a uma ordenação que pudesse estabelecer um conjunto que pudesse denominar-se
História dos Estados Unidos.
Claro que
as ideologias existem e elas mesmas fazem parte da História já que no fundo
ilustram determinada conjuntura de acontecimentos que culminaram em uma linha
de pensamento definida. O que declino é acerca da utilização destas como
embasamento para um estudo mesmo que precedente à existência desta. Assim,
determinar as bases da colonização norte-americana segundo uma visão Marxista
de estabelecimento de dominação econômica sobre classes sociais utilizando-se
neste ponto o colonizador inglês e o nativo indígena excluindo-se outras
correlações de âmbito social, religioso e cultural, é predefinir uma nação como
que já formada em seus primórdios, sem proceder uma investigação sobre seu
desenvolvimento. Seria como conceber que o povo americano foi capitalista mesmo
antes do Capitalismo. E que, num contexto marxista, também anterior ao
Marxismo, estabeleceu-se uma estrutura de dominação imperialista. Seriam
anuladas as razões religiosas do empreendimento colonial estadunidense bem o
caráter de inter-relação entre nativos e colonos. Restaria uma nação pronta,
feita desde o princípio, para a qual nenhuma evolução processou-se, uma História
portanto pronta, sem quaisquer diferenças entre o hoje e o ontem.
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