domingo, 18 de março de 2012

PREFÁCIO AO HISTORIADOR.


PREFÁCIO AO HISTORIADOR:

"A História sem preconceitos, sem ideologias pragmáticas, escolásticas ou quaisquer atributos que a separem de sua verdadeira missão: investigar, desvendar, analisar e narrar a evolução da humanidade e suas relações tanto intrínsecas quanto externas diante dos fatos históricos presentes tanto nos registros empíricos quanto naqueles advindos de outras observações feitas anteriormente."


Por muito tempo a História permaneceu como um simples relato dos acontecimentos contemporâneos a serviço ora do engrandecimento de um povo diante de sua “missão”, fosse ela política, econômica ou religiosa. Heródoto em sua História, enaltece as civilizações helenísticas, suas contemporâneas, Suetônio em Os doze Cézares, pretende eternizar o registro de forma quase arquivista dos soberanos imperiais romanos, Santo Agostinho, Eusébio de Cesaréia e São Tomás de Aquino, utilizando-se da filosofia escolástica cristã, vinculam em suas obras o Cristianismo como o eixo norteador de sua História; talvez os primeiros momentos em que uma ideologia passa a nortear o desenvolvimento de um estudo histórico. 
Neste formato temos então diversas orientações seguindo este caminho. Podemos mesmo assinalar, à parte de seu contexto reformista, Lutero como um analista da História de seu tempo ao usar, para defender suas idéias, a análise crítica de determinado contexto histórico. Marx, utiliza-se também da discussão histórica para então definir seu pensamento econômico acerca dos caminhos do Capitalismo. 
Desta forma, o que pretendo ao citar tais personalidades tão próximas e ao mesmo tempo outras tão distantes do que, classicamente, se chamaria de historiadores, defender que além de ser complexo definir-se qual o rumo certo no estudo da História, definir também quem é o verdadeiro historiador é tão desafiante quanto. Seria simplesmente o acadêmico que se titula formalmente na área? A testemunha de determinado fato histórico que depõe acerca desta? O defensor reformista seja ele político, econômico ou religioso ao defender sua nova ideologia? Vago, necessita certamente de profundas divagações sobre quem seria.
A verdade é que a História faz-se. Independente de quem decida descrever suas nuances ela se estabelece pois é o próprio tônus vital do ser racional, daquele ser; humano ou não_ afinal sabemos nós sejamos os únicos_ que se vincula a este em cada ato seu. Cada etapa humana desde sua ascenção ao pensamento passou a vincula-lo ao estabelecimento de sua caminhada e à necessidade de deixar expostos os acontecimentos pelos quais passa e desbravar de onde veio.


O Homem é um ser que se relaciona com as raízes. Como ser social, agrupasse e estabelecendo vínculos hereditários, interessa-se por estabelecer também origens, sejam elas reais ou abstratas. Assim, como os Gregos se consideravam autóctones, outros vagavam pelo passado em busca de seu ancestral mais primordial. Roma vangloriava-se por intermédio de Virgílio e de sua obra clássica Enéida, da gloriosa ascendência Troiana. Os Hebreus, o povo escolhido, semearam a certeza na existência de um único Deus universal, mas que pertencia apenas a eles. A humanidade busca respostas sobre a quem pertencem e como chegaram ao que é hoje. Buscam através das narrativas históricas conhecer-se e auto afirmar-se na eternidade dos tempos, eternizando-se junto a ela, tornando-se assim menos mortais.
O intuito porém daquele que podemos denominar historiador, sobrepõe-se a uma mera busca de raízes heroicas ou argumentos tendenciosos e unilaterais, mas se universaliza diante dos numerosos aspectos grandiosos e cotidianos da existência humana. Longe de divagações filosóficas, o verdadeiro historiador; ao meu ver, estabelece uma narrativa de fatos sem expor conclusões próprias que o desvinculem da missão de exposição desta caminhada humana. Se no decorrer desta inúmeros foram aqueles que, inspirados por ideologias, construíram uma História paralela própria, outros foram os que, desvinculados de preconceitos e determinismos, elucidaram questões polêmicas rompendo análises tendenciosas e particulares.
Enquanto, ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX se discutiu qual a melhor forma de se analisar e estudar a História, proponho que a partir deste século XXI seja reconhecido que todos fazem essa História e podem faze-la, desde que desvinculados de si, em torno dos fatos. Claro que fatos são inconclusivos sem sua devida constatação e tal coisa carece muitas das vezes do embasamento necessário que a comprove, mas o importante faz-se que sejam expostas todas as cartas, sem descartar quaisquer possibilidades. Assim, se comparamos um panorama não deixaremos de vislumbrar outro por simples descarte sem a devida análise. Este decerto é um exercício de humildade e desprendimento diante de convicções diversas, mas que faz-se; ao meu ver, atributo indispensável àquele que se dispõe, diante das várias fontes e dos fatos históricos, a proceder uma leitura que estabeleça se não uma verdade absoluta ao menos uma correlação livre de tendencialismos.
Quando a pretensão particular domina este estudo histórico, temos as concepções unilaterais que tanto presenciamos em diversas obras historiográficas desde então. Produções que destacam determinado ponto de vista em detrimento de outro na intenção de defender este como único e absoluto. Podemos verificar, por exemplo, nas abordagens marxistas da História presentes no decorrer do século XX, na doutrinação Nazista de uma História gloriosa da raça ariana, nas análises político-econômicas Capitalistas acerca dos países “subdesenvolvidos” ou mesmo em questionamentos religiosos dogmáticos diversos. Assim, mais do que a manipulação da História, estabelece-se uma descontinuidade histórica a partir de que tais visões distorcidas geram “verdades” ambíguas diante de outras, opiniões que fogem do palpável e existente para seguirem rumos traçados diante da vontade própria.
Decerto é um desafio tratar de expor a História procurando, ao mesmo tempo, não ser tendencioso tampouco ser superficial. Expor uma análise sem faze-la particular e ao mesmo tempo não deixar essa análise perdida em uma simples arrecadação de informação. Compor a História é mais do que tudo isto, e quem deve a compor é um desafio maior ainda a ser estipulado. Neste sentido portanto, vem primeiro estabelecer que tipo de estudioso tem a capacidade de executar isto da forma mais imparcial. Quem seria o sujeito que não se fizesse verbo da ação mas um elemento de ligação entre os diversos complementos de uma frase histórica a fim de compor, parágrafo por parágrafo, um texto que em uníssono estabelecesse determinada História? Certamente não seria aquele que o fizesse segundo suas impressões mas que organizasse racionalmente as diversas fontes e os diversos fatos estabelecendo suas origens e consequências sem detrimento de cada detalhe em função de preconceitos ou divergências ideológicas.
Assim sendo, se um dito Marxista desenvolvesse um trabalho sério sobre a História dos Estados Unidos, deveria deixar suas convicções de lado para, analisando todos os aspectos, desenvolver seu trabalho verificando cada detalhe formador desta sociedade, livre de conceitos preconcebidos acerca do estabelecimento de conceitos de dominação imperialista ou similares, analisando a formação desta sob todos aspectos sem definições conclusivas extremistas. Far-se-ia necessário portanto que se estabelecesse, por exemplo, a situação formadora, aspectos precedentes, conjunções entre ambos, desenvolvimento, influências externas posteriores até que se pudesse chegar não a conclusões vagas e particulares mas a uma ordenação que pudesse estabelecer um conjunto que pudesse denominar-se História dos Estados Unidos.
Claro que as ideologias existem e elas mesmas fazem parte da História já que no fundo ilustram determinada conjuntura de acontecimentos que culminaram em uma linha de pensamento definida. O que declino é acerca da utilização destas como embasamento para um estudo mesmo que precedente à existência desta. Assim, determinar as bases da colonização norte-americana segundo uma visão Marxista de estabelecimento de dominação econômica sobre classes sociais utilizando-se neste ponto o colonizador inglês e o nativo indígena excluindo-se outras correlações de âmbito social, religioso e cultural, é predefinir uma nação como que já formada em seus primórdios, sem proceder uma investigação sobre seu desenvolvimento. Seria como conceber que o povo americano foi capitalista mesmo antes do Capitalismo. E que, num contexto marxista, também anterior ao Marxismo, estabeleceu-se uma estrutura de dominação imperialista. Seriam anuladas as razões religiosas do empreendimento colonial estadunidense bem o caráter de inter-relação entre nativos e colonos. Restaria uma nação pronta, feita desde o princípio, para a qual nenhuma evolução processou-se, uma História portanto pronta, sem quaisquer diferenças entre o hoje e o ontem.

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