A POLÉMICA JUDÁICA
Ser um
historiador não é apenas estudar a História, mas discuti-la e analisa-la com a
coragem necessária de um crítico. Existem assuntos muito polêmicos que são por
vezes negligenciados na intenção de não provocar polêmicas. O caso dos Judeus é
um desses. Distante de absurdos radicais como do presidente do Irã Mahmoud
Ahmadinejad que nega o holocáusto nazista, assumo o absurdo de tal colocação
diante de óbvios argumentos que não necessitam ser explicitados aqui. Sim! o
holocáusto existiu! E é uma mancha que jamais será expurgada da humanidade, não
pelos alemães e o que fizeram apenas, mas pelo silêncio das diversas nações
que, durante anos antes do início real da guerra, já tinham notícias das
violências perpetradas pelos nazistas nos países ocupados do pré-guerra (
Tchecoslovaquia e Áustria ).
A questão
portanto aqui neste artigo, perpassa pela hipocrisia, a qual ainda hoje nos
acompanha sob a sombra desta violência. Ao final da guerra como é sabido, um
sentimento de justiça; disfarce para o real sentimento de culpa das nações
vitoriosas, levantou a voz na reivindicação por um Estado Judeu. Neste momento
voltaram à pauta questões tão exotéricas e vagas que poderiam ser facilmente
contestadas não fosse o momento de consternação pelo qual o mundo passava
diante das cenas horrendas dos campos de concentração e extermínio nazistas.
Todos os embasamentos ideológicos para o estabelecimento deste Estado
encontravam seu esteio em um simples livro, cujo crédito; contestável, nunca
foi questionado: a Biblia. Escrita notadamente por Judeus, seria a Bíblia um
instrumento de legitimação do pertencimento das terras da Palestina aos Judeus
em detrimento dos povos que ali viviam a séculos? Claro que a necessidade de
expurgar-se dos próprios pecados contidos nos anos de "olhos
fechados" de Inglaterra, França e Estados Unidos fazia premente que o caso
fosse de imediato resolvido sem quaisquer contestações.
Assim, diante da perplexidade do povo Palestino, o Estado de Israel emergiu como que num passe de mágica, diante de seus olhos, soterrando suas vidas. Um absurdo foi resolvido gerando outro absurdo. As consequências, que logo vieram, deixaram um rastro de sangue desde o início. Inúmeras guerras se travaram entre os Judeus considerados invasores e os Árabes que se consideravam expurgados da justiça. A consideração contida na Bíblia de que aquelas terras lhes foram dadas por Deus podiam ser facilmente discutidas diante daquelas contidas no Alcorão por exemplo. Mas somado à culpa ocidental pela barbárie germânica havia a poderosa força da comunidade judáica dos Estados Unidos que, supremo vitorioso, auxiliava agora a formação deste Estado para, além de desatar os nós do remorso, criar um tampão capitalista diante dos avanços comunistas da União Soviética, esta cujo lider Josef Stalin, tinha relações profundamente discutíveis com os judeus russos, aos quais havia empregado uma política bastante similar à empregada por Adolf Hitler.
Dessa forma, em 1947, quando o Estado de Israel é criado, o mundo esta embriagado em sua própria hipocrisia. A Alemanha devastada pela culpa de monstro inominável é tolhida de sua liberdade enquanto muitos de seus aliados permanecem detentores desta. Não discuto neste artigo se tal atitude fôra correta ou incorreta visto a abrangência dos crimes cometidos não só contra Judeus mas também a outras etnias minoritárias e nichos sociais, apenas ilustro o quanto uns foram punidos enquanto outros comodamente foram inocentados ou mesmo tornaram invisíveis seus crimes. O mundo, como disse, passando pelos anos traumatizantes da guerra, via-se no impasse de julgar aqueles que considerasse os principais culpados, não podendo culpar toda a Europa, seria necessário culpar a parte dela mais atuante em tais atrocidades.
Hoje, depois de 65 anos da criação de Israel, questões se avolumaram de tal forma que parecem insolúveis tais problemas. A formação de um Estado Palestino a qual fazia parte das discussões desde o princípio e foi simplesmente postergada, tornou-se de algo aparentemente secundário, àquela época, na "pedra no sapato" da hipocrisia ocidental e da realização do sonho Judeu, que de inocente tornou-se imperialista, passando do simples estabelecimento de sua nação a uma empreitada de dominação afora dos limites determinados pelas convenções da época. Assim, em pouco tempo após sua formação, e até hoje, Israel ocupa territórios que não lhe pertenciam; ao menos pelos tratados, mas que julgavam sê-los seus de acordo com os textos "sagrados ditados por Deus" de sua Bíblia.
O exemplo que destaco neste artigo de tal política é a faixa de Gaza, que ultrapassa a simples ocupação de um território, deixando de lado a nossa própria piedade diante do passado doloroso e sofrido do povo Judeu, quando vemos; nessa região, barbaridades serem feitas a tal ponto de fazer-nos; historiadores que somos, nos recordarmos de outra ocupação que extrapolou a simples questão territorialista: o gueto de varsóvia. Acotovelados em um quarteirão da cidade polonesa, a "pão e água", todos os Judeus da cidade e mesmo de outras da Polônia, foram alojados de forma nojenta e abjeta pelos algozes alemães, vivendo sob condições sub-humanas. Tais realidades, ao invés de lições para a humanidade e, em particular àqueles que a sofreram, parecem ter-se tornado fundamento ideológico para as atuais torturas com relação ao povo Palestino habitante da faixa de Gaza.
Mais uma vez o mundo assiste de forma absolutamente passiva e cega tais arbitrariedades, enquanto se insurge violentamente contra as infâmias ditas pelo ditador iraniano quanto à existência do Holocáusto. Distante de negar a importância de se reagir quanto a tal absurdo de um lider lunático e fanático, parece-me tão importante quanto isso, estabelecermos que não há santidade em ambos, tanto os insensatos líderes islâmicos mais exaltados quanto as lideranças Judáicas tirânicas.
Outro Holocáusto... e novamente o mundo vira o rosto diante da própria vergonha ao invés de encoara-la de frente, doa a quer doer. O silêncio norteamericano, notadamente óbvio, com relação ao seu aliado no Oriente Médio, assemelha-se a todos os prelúdios da Segunda Guerra e das atrocidades humanas cometidas. Apesar disto nada se faz, tampouco nada se tem a coragem de dizer, sob a nominação de "discurso antisemita". Antisemitismo ou justiça? Será que mostrar-se o óbvio é uma atitude antisemita? Criticar os erros é algo condenável? Impedir que um povo que sofreu demais torne-se agora o inverso e passe de vítima a algoz é ser antisemita? Portanto se assim o for eu sou antisemita. Pois não consigo me abster, sendo um historiador, de comparar dois fatos que se mostram tão semelhantes e diante de tão irônico participante que, a despeito de todo o seu sofrimento passado, chafurda-se na lama dos mesmos crimes, chafurdando junto todo um povo, gerando novamente o ódio de tantos por eles.
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