ORIGENS DA SELVAGERIA E DA BARBÁRIE
Eu
cheguei a relutar na discussão desse assunto tão polêmico que pode nos levar a
conjecturas extremistas e determinadamente pessoais diante dos acontecimentos.
Apesar disto decidi continuar fiel ao meu conceito da função do historiador.
Ele deve sim ser o gerador, muitas vezes, da polêmica. Mantendo-se imparcial
deve porém não temer as consequências das análises feitas se foram
fundamentadas e isentas de preconceitos ou indeterminismos. Assim, as origens
da selvageria e da barbárie, assunto extremamente complexo e extremo, é um
desafio que certamente em um único texto não poderei explorar por completo.
Portanto, pretendo ilustrar o fato diante dos eventos acontecidos hoje durante
as apurações dos desfiles de carnaval ocorridos em São Paulo.
A maior
cidade do país, detentora do poder econômico brasileiro possui inúmeras
desigualdades as quais tem sido constantemente utilizadas pelos Materialistas
Históricos, como a razão da violência diante da revolta pelo nível de
desigualdades. Fato: Fosse assim tal população, "revoltada", não
teria já irrompido em uma sangrenta tomada de poder através de uma guerra
civil? Ou estes estudiosos, intimamente, escondem a crença de serem estes
impossibilitados de algum nível de organização necessária a tal coisa,
considerando-os, portanto, incapazes ou mesmo inferiores? Claro que não vou
mais me alongar aqui em críticas a estes estudiosos, apenas estou antecipando a
polêmica principal atraves de outra subjacente.
Chegando
então ao que interessa. O Brasil, em seus primórdios; como inúmeros textos
destacam, foi ocupado por um tipo de pessoas interessadas em desbrava-la diante
de conceitos quase de desespero pela busca de fortuna e poder, os quais eram
impossibilitados em sua terra natal, Portugal, pelas regras sociais vigentes do
"Antigo Regime". Apesar disto, este mesmo contexto foi sendo aos
poucos também implantado nas terras do novo mundo como descrevem João Fragoso,
Jucá e Maria Fernanda Bicalho, sem antes; porém, implantarem também uma
colonização bárbara nestes trópicos tórridos e selvagens. As dificuldades da
exploração aliada às próprias origens destes, formaram uma elite; em particular
a dos desbravadores paulistas, extremamente rude e agressiva. Diversos documentos
dos séculos XVII e XVIII comentam acerca da ferocidade e bestialidade destes
habitantes das terras paulistas e que, com a descoberta das minas, acirraram
este aspecto na luta feroz pela apropriação destas, desafiando muitas vezes as
próprias autoridades reinóis.
O tempo
foi passando, o Brasil tornou-se nação independente, São Paulo foi
consolidando-se econômicamente, primeiramente como o celeiro cafeeiro e a
partir de inícios do século XX como o berço industrial brasileiro. Aliado a
isto a "elite" social paulista também adquire certa projeção. Apesar
disto, sempre mantém-se, aí vem a polêmica, sua característica original
agressiva e notadamente embrutecida. Com a chegada no fim do século XIX de
imigrantes italianos, em sua maioria anarquistas e refugiados das guerras de
independência italiana, a sociedade paulista adquiriu mais uma leva de
indivíduos cuja ação diante das questões fazia-se por vias tão agressivas
quanto daqueles primeiros desbravadores setecentistas e oitocentistas. Aliado a
isto o constante descontentamento com um certo complexo de abandono, gerado
pela primazia do Rio de Janeiro como capital da corte e posteriormente capital
federal da República, faziam dos paulistas eternos descontentes e contestadores
violentos. Sob a alcunha, em 1932, de defensores da normalidade democrática,
insurgiram-se contra o "governo provisório" de Getúlio Vargas.
Não levando à discussão a questão ideológica que justifique ou não as
reais intenções daquele movimento, o que pretendo esclarecer é a constante
atitude social paulista diante dos fatos.
Quando
hoje a tarde me deparei com a depredação injustificada diante de um empecilho
ocorrido durante a apuração do resultado dos desfiles, juntou-se em minha
memória as tantas brigas de torcidas ocorridas tanto lá quanto aqui também no
Rio de Janeiro, as ações da polícia agressiva ao extremo e outras
particularidades, lembrei-me dos relatos daqueles primórdios da nossa
colonização, da nossa História Antiga brasileira que, a despeito do que é
ilustrada nos livros, juntou as "glórias" dos Bandeirantes à
brutalidade vil e abjeta destes em seus intentos. Uma sociedade formada em seu
princípio pela constante adversidade conquistada pela força e brutalidade
parece ter originado uma outra na qual qualquer coisa torna-se motivo para
extravasar uma agressividade desmedida e insensata.
É difícil
e controverso analisar tudo isto, talvez até mau interpretado muitas vezes, mas
faz-se necessário abordar ou nos tornamos de historiadores em meros narradores
de fatos históricos sem verificarmos suas nuances, origens e repercussões.
Nesse encargo, como disse, é muito pouco um único texto para analisar este
fenômeno, tampouco uma breve pesquisa é suficiente para esboçar tantos séculos
da história da selvageria e barbárie. Talvez, acima das origens brutais esteja
o descaso com a educação e desconfiguração dos limites antes arbitrariamente
impostos pela família e hoje, no sentido extremo, liberalizantes. Uma tradição
de conquista aliada a uma atualidade onde qualquer limite é imposto, gera tais
ocorrências que confundem Democracia com fazer-se o que quer e que no fundo
mantém a política da força, da imposição pela agressividade da própria opinião
e de um grupo social.
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