domingo, 18 de março de 2012

ORIGENS DA SELVAGERIA E DA BARBÁRIE


ORIGENS DA SELVAGERIA E DA BARBÁRIE


Eu cheguei a relutar na discussão desse assunto tão polêmico que pode nos levar a conjecturas extremistas e determinadamente pessoais diante dos acontecimentos. Apesar disto decidi continuar fiel ao meu conceito da função do historiador. Ele deve sim ser o gerador, muitas vezes, da polêmica. Mantendo-se imparcial deve porém não temer as consequências das análises feitas se foram fundamentadas e isentas de preconceitos ou indeterminismos. Assim, as origens da selvageria e da barbárie, assunto extremamente complexo e extremo, é um desafio que certamente em um único texto não poderei explorar por completo. Portanto, pretendo ilustrar o fato diante dos eventos acontecidos hoje durante as apurações dos desfiles de carnaval ocorridos em São Paulo.

A maior cidade do país, detentora do poder econômico brasileiro possui inúmeras desigualdades as quais tem sido constantemente utilizadas pelos Materialistas Históricos, como a razão da violência diante da revolta pelo nível de desigualdades. Fato: Fosse assim tal população, "revoltada", não teria já irrompido em uma sangrenta tomada de poder através de uma guerra civil? Ou estes estudiosos, intimamente, escondem a crença de serem estes impossibilitados de algum nível de organização necessária a tal coisa, considerando-os, portanto, incapazes ou mesmo inferiores? Claro que não vou mais me alongar aqui em críticas a estes estudiosos, apenas estou antecipando a polêmica principal atraves de outra subjacente.

Chegando então ao que interessa. O Brasil, em seus primórdios; como inúmeros textos destacam, foi ocupado por um tipo de pessoas interessadas em desbrava-la diante de conceitos quase de desespero pela busca de fortuna e poder, os quais eram impossibilitados em sua terra natal, Portugal, pelas regras sociais vigentes do "Antigo Regime". Apesar disto, este mesmo contexto foi sendo aos poucos também implantado nas terras do novo mundo como descrevem João Fragoso, Jucá e Maria Fernanda Bicalho, sem antes; porém, implantarem também uma colonização bárbara nestes trópicos tórridos e selvagens. As dificuldades da exploração aliada às próprias origens destes, formaram uma elite; em particular a dos desbravadores paulistas, extremamente rude e agressiva. Diversos documentos dos séculos XVII e XVIII comentam acerca da ferocidade e bestialidade destes habitantes das terras paulistas e que, com a descoberta das minas, acirraram este aspecto na luta feroz pela apropriação destas, desafiando muitas vezes as próprias autoridades reinóis.

O tempo foi passando, o Brasil tornou-se nação independente, São Paulo foi consolidando-se econômicamente, primeiramente como o celeiro cafeeiro e a partir de inícios do século XX como o berço industrial brasileiro. Aliado a isto a "elite" social paulista também adquire certa projeção. Apesar disto, sempre mantém-se, aí vem a polêmica, sua característica original agressiva e notadamente embrutecida. Com a chegada no fim do século XIX de imigrantes italianos, em sua maioria anarquistas e refugiados das guerras de independência italiana, a sociedade paulista adquiriu mais uma leva de indivíduos cuja ação diante das questões fazia-se por vias tão agressivas quanto daqueles primeiros desbravadores setecentistas e oitocentistas. Aliado a isto o constante descontentamento com um certo complexo de abandono, gerado pela primazia do Rio de Janeiro como capital da corte e posteriormente capital federal da República, faziam dos paulistas eternos descontentes e contestadores violentos. Sob a alcunha, em 1932, de defensores da normalidade democrática, insurgiram-se contra o "governo provisório" de Getúlio Vargas. Não  levando à discussão a questão ideológica que justifique ou não as reais intenções daquele movimento, o que pretendo esclarecer é a constante atitude social paulista diante dos fatos.

Quando hoje a tarde me deparei com a depredação injustificada diante de um empecilho ocorrido durante a apuração do resultado dos desfiles, juntou-se em minha memória as tantas brigas de torcidas ocorridas tanto lá quanto aqui também no Rio de Janeiro, as ações da polícia agressiva ao extremo e outras particularidades, lembrei-me dos relatos daqueles primórdios da nossa colonização, da nossa História Antiga brasileira que, a despeito do que é ilustrada nos livros, juntou as "glórias" dos Bandeirantes à brutalidade vil e abjeta destes em seus intentos. Uma sociedade formada em seu princípio pela constante adversidade conquistada pela força e brutalidade parece ter originado uma outra na qual qualquer coisa torna-se motivo para extravasar uma agressividade desmedida e insensata. 

É difícil e controverso analisar tudo isto, talvez até mau interpretado muitas vezes, mas faz-se necessário abordar ou nos tornamos de historiadores em meros narradores de fatos históricos sem verificarmos suas nuances, origens e repercussões. Nesse encargo, como disse, é muito pouco um único texto para analisar este fenômeno, tampouco uma breve pesquisa é suficiente para esboçar tantos séculos da história da selvageria e barbárie. Talvez, acima das origens brutais esteja o descaso com a educação e desconfiguração dos limites antes arbitrariamente impostos pela família e hoje, no sentido extremo, liberalizantes. Uma tradição de conquista aliada a uma atualidade onde qualquer limite é imposto, gera tais ocorrências que confundem Democracia com fazer-se o que quer e que no fundo mantém a política da força, da imposição pela agressividade da própria opinião e de um grupo social.

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